Discussão de Gestão Participativa

Conforme solicitação de alunos e colegas, e com o intuito de divulgar e incentivar a discussão de textos sobre a temática “Processo de Trabalho, Gestão, Poder e Subjetividade”, compartilho aqui resenha do texto do Prof. Dr. José Henrique de Faria, intitulado “A Gestão Participativa Restrita e a Expandida e seus Problemas” de 2009.

O capítulo 5 trata sobre a gestão participativa restrita e consultiva, vai explanar sobre como as práticas de gestão que promovem a participação nas organizações cumprem um papel de controle das contradições e possíveis conflitos decorrentes das tecnologias de gestão taylorista e fordista. Já o capítulo 7, trata sobre a gestão participativa expandida, caracterizada aqui pela economia solidária, e vai explanar sobre como as formas cooperativas, participativas e solidárias de produção, comercialização, financiamento, enfim mais do que se tratar de uma forma realmente participativa de autogestão do trabalho, mantém-se, em sua essencia, como sistema de controle social, que não só não confronta o distema capitalista de produção, como atua complementando sua atuação.

Sobre a gestão participativa restrita e consultiva: o texto discute como várias teorias de gestão de pessoas foram propondo ferramentas de gestão que incluem a participação dos trabalhadores, tais como os círculos de controle de qualidade, o enlargamento e enriquecimento do trabalho, o desenvolvimento de grupos semi autonomos, entre outros,  que envolvem os trabalhadores nas tomadas de decisões da organização.

Estas ferramentas tem efeitos diversos. Em sua aparência fenomênica, a participação e envolvimento dos trabalhadores promovem melhorias nas condições de trabalho, uma vez que são percebidas pelos trabalhadores como fatores que ampliam sua autonomia, dão vasão a parte da sua criatividade, fazendo com que as atividades não sejam tao restritivas, simpificadas e repetitivas como no modelo de gestão taylorista e fordista, tendo sido vistas inclusive por alguns autores como ferramentas de gestão que humanizavam o trabalho.

Em sua essência, no entanto, estas práticas não ampliam de fato a autonomia, nem possibilitam a participação dos trabalhadores enquanto classe para si. Isto é, embora individualmente, os trabalhadores possam se sentir valorizados e incluidos nas decisões das empresas, estas decisões ficam restritas a questões tecnicas e operacionais, que não contrariem objetivos organizacionais mais amplos já determinados pela organização, não configurando uma participação efetiva dos trabalhadores, uma vez que estes são cooptados e seduzidos de modo a agir em prol do alcance dos interesses e objetivos da organização, objetivos estes, cuja determinação é realizada sem sua participação.

Promovendo a participação restrita, portanto, as organizações ganham duplamente, primeiramente pela utilização do conhecimento do trabalhador, que incitado a participar, contribui para o aumento contínuo da eficiência organizacional, e também porque resolve problemas decorrentes das práticas de gestão até então vigentes que, por serem demasiado autoritárias e restritivas, incitavam ações de revolta e contra-controle por parte da força de trabalho.

Já no capítulo 7, a discussão sobre a gestão participativa expandida trás a caracterização da economia solidária. Inicia-se apresentando o contexto socio-econômico em que a economia solidária se desenvole: tem-se que a atual configuração do sistema capitalista de produção faz transparecer algumas contradições: tais quais o desemprego estrutural, a desigualdade de renda, a mudança tecnológica de base microeletrônica e as decorrentes diminuições de postos de trabalho dados a avanços tecnológicos, o aumento das terceirizações, a precarização do trabalho em atividades de franja, isto é, que não fazem parte do núcleo produtivo,  assim a economia solidária é apresentada como uma forma de fazer frente a essas contradições do capital, agindo de forma a compensar suas mazelas, como opção de emprego e geração de renda para pessoas excluídas pelo sistema de capital. A economia solidária é inclusive vista por alguns autores como uma nova forma de organização e produção passivel de fazer frente e ser uma alternativa ao sistema capitalista de produção.

O que o texto discute é que, novamente, passando do aspecto fenomênico e do discurso a respeito da economia solidária as organizações que se enquadram dentro da lógica da economia solidária não deixam de fazer parte do sistema capitalista de produção, e, embora internamente possam se organizar de forma democrática e participativa, uma vez que fazem trocas com o mundo do capital não conseguem manter a mesma forma de atuação. O que algumas dessas organizações parece demonstrar é que internamente é possível uma gestão democrática, porém, não se pode ver essa reoganização interna como um processo que faça frente ao sistema de produção capitalista no qual se insere.

Se isso já é verdade para as organizações que de fato, ao menos internamente, assumem uma forma de organização solidária e democrática, tem-se ainda que a maioria das organizações entendidas como características da economia solidária não cumprem nem internamente esses pontos, uma vez que não são decorrentes de uma organização de iniciativa dos próprios trabalhadores (cooperados por exemplo), sendo impostas, incitadas, incentivadas heteronomamente, isto é, partem de incubadoras acadêmicas, instituições religiosas, de empresas “socialmente responsáveis” ou, por exemplo, de políticas públicas, que definem não só os objetivos que devem ser atingidos, como “ensinam” os meios de organização “autônoma” para os trabalhadores associados.

Nesta atuação paternalista do estado, verifica-se que não se trata de uma forma de atuação organizada de iniciativa da sociedade, e sim da utilização de organizações de economia solidária de forma a cumprirem interesses do capital, a medida em que, por exemplo, cumprem serviços sociais necessários em atividades que não são de interesse econômico do capital, tal como os catadores de lixo e as cooperativas de reciclagem, ou resolvem (ou amenizam), problemas decorrentes das contradições intrínsecas do capital, tais como a questão do desemprego, amenizada pela geração de renda nesta forma de organização para pessoas normalmente excluídas do sistema de capital.

 

Referencia:

FARIA, JOSE HENRIQUE de; Gestão Participativa: relações de poder e de trabalho nas organizações. São Paulo: Atlas, 2009.  A Gestão Participativa Restrita e a Expandida e seus Problemas. Caps. 5 e 7.

Camila Bruning

Camila Bruning

professora em nível de graduação no Centro Universitário UNINTER, em Curitiba- PR em Uninter
Doutoranda (previsão de conclusão em março de 2017) e Mestre pelo programa de Administração da Universidade Federal do Paraná na linha de pesquisa "Estratégia e Análise organizacional" (2010). Pós-Graduada em Administração com ênfase em Gestão de Psicologia Organizacional pela FAE- Business School (2007). Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (2005).
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