Discussão de Gestão, Trabalho e Poder

Conforme solicitação de alunos e colegas, e com o intuito de divulgar e incentivar a discussão de textos sobre a temática Processo de Trabalho, Gestão, Poder e Subjetividade, compartilho aqui resenha do texto do Prof. Dr. José Henrique de Faria, intitulado “Gestão, Trabalho e Poder” de 2013.

O texto intitulado “Gestão, trabalho e poder” traz as seguintes discussões: os fundamentos epistemológicos e metodológicos da teoria da economia política do poder, e como esta teoria se insere nos estudos organizacionais, para isso retoma o conceito de organização adotado por esta teoria, discorrendo principalmente sobre seu principal objeto a organização capitalista do trabalho e as relações de poder, controle e resistência que se estabelecem em seu interior.

A Teoria da Economia Política do Poder é uma teoria que tem o materialismo histórico como epistemologia e a dialética como método. Em relação ao posicionamento epistemológico o materialismo histórico entende que a realidade é construída historicamente, a partir do que os homens fazem para garantir a produção de seus meios materiais se existência. Em relação ao método dialético tem-se que este pressupõe a primazia do real, e a apropriação deste pela via do pensamento, para que por meio de reflexão e análise se chegue ao real pensando. Parte-se da aparência fenomênica dos fenômenos para a partir dela tentar compreender sua totalidade, sempre contraditória, visto que a dialética compreende a luta dos contrários como parte de toda unidade. O método dialético entende que tanto a realidade quanto o pensamento são dialéticos, portanto ambos seriam dinâmicos, transitórios e contraditórios, e que o real pensado é sempre uma representação da realidade concreta. Já em relação às técnicas de pesquisa, coleta e análise de dados, a teoria da economia política do poder não privilegia nem pretere nenhuma em particular, entendendo que é o fenômeno em estudo, a realidade, que demandará quais técnicas deverão ser mais indicadas para apropriar-se dela, e que quanto mais formas existirem à disposição do pesquisador para apropriar-se desta realidade maior será a qualidade da pesquisa.

A Teoria da Economia Política do Poder compreende como realidade concreta inclusive aspectos não tangíveis da vida e ação do homem, por exemplo, seus sentimentos, imaginário, subjetividade, dada a concretude que tem para o próprio homem, e o papel que tem na determinação de sua ação. Por isso a teoria da economia política do poder, além de se basear na teoria crítica, característica da escola de Frankfurt, busca articular marxismo com outras disciplinas como a psicossociologia e a psicologia social, admitindo sua contribuição para se entender outros aspectos de seu objeto principal: as relações de poder que se concretizam no interior das organizações, entendidas enquanto unidades produtivas.

O foco nas organizações enquanto unidades produtivas se dá por ser neste sentido que se encontra a função social do conceito de organização, isto é como forma organizada de produzir as condições materiais de existência. Dada a identificação epistemológica do materialismo histórico, as organizações são entendidas dentro da economia política do poder enquanto unidades produtivas capitalistas, isto é, localizadas no momento de evolução das relações sociais de produção na qual nos encontramos hoje, e que é representada pelo globalismo.

A análise da Teoria da Economia Política do Poder tem como foco de análise, além das organizações, compreendidas conforme descritas no parágrafo acima, as relações entre sujeitos e grupos sociais que se estabelecem em seu interior, buscando entender as relações de poder, os mecanismos de controle e as formas de resistência e enfrentamento.

Sobre essas relações de poder a Teoria da Economia Política do Poder entende que estas se relacionam à disputa pela posse, uso e distribuição dos meios de produção e seus produtos, que sob a égide do capitalismo segue a lógica da reprodução ampliada, sendo a apropriação desigual e injusta a maior crítica a ser denunciada deste sistema, o poder é capacidade de definir e realizar interesses que se materializa no controle do processo de produção e de trabalho.

Conforme a Teoria da Economia Política do Poder, no capitalismo já se podem identificar 3 fases distintas das formas de controle do processo de produção e de trabalho: o controle simples do processo de trabalho, a fase de controle expandido do processo de trabalho, e a mais recente e atual fase de controle sofisticado do processo de trabalho.

A fase de controle simples do processo de trabalho se relaciona principalmente à divisão técnica do trabalho e ao controle da quantidade de produção por jornada de trabalho, se relacionando à geração de mais valia absoluta.

A fase de controle expandido do processo de produção e trabalho corresponde à prevalescencia das técnicas tayloristas e fordistas de produção, com as preocupações de aumento de eficiência produtiva, em que técnicas de controle visavam disciplinar os corpos para o trabalho, por meio principalmente do estudo de tempos e movimentos, tendo como consequência mais característica a divisão entre trabalho mental e manual, podendo-se relacionar esta fase já com a geração de mais valia relativa (maior produtividade por hora de trabalho).

Já a terceira e atual fase do controle do processo de produção e de trabalho é considerada uma sofisticação do tipo de controle da fase anterior, característica da gestão flexível e da ideologia gerencialista, o principal ponto dessa nova forma de controle é a tentativa de controle da subjetividade do trabalhador. Promovendo a identificação, o vínculo, essa nova forma de controle visa envolver o trabalhador com os objetivos organizacionais, de modo que este os toma como se fossem seus. A principal inovação em termos de controle está em conseguir convencer o trabalhador de uma situação de “ganha-ganha”, em que contradições entre capital e trabalho são encobertas, de modo que o conflito de interesses é mais dificilmente percebido, levando a uma submissão consentida, e até mesmo desejada, por parte do trabalhador ao capital, fazendo com que formas de resistência e contra-controle sejam esvaziadas.

Como objetivo prático, assim, a Teoria da Economia Política do Poder, visa desvendar as relações de poder, seus mecanismos de controle e formas de resistência visando subsidiar os sujeitos em suas ações de enfrentamento.

Referencia:

FARIA, J.H. “Gestão, Trabalho e Poder”. PDF, material da disciplina, 2013.

 

 

Camila Bruning

Camila Bruning

professora em nível de graduação no Centro Universitário UNINTER, em Curitiba- PR em Uninter
Doutoranda (previsão de conclusão em março de 2017) e Mestre pelo programa de Administração da Universidade Federal do Paraná na linha de pesquisa "Estratégia e Análise organizacional" (2010). Pós-Graduada em Administração com ênfase em Gestão de Psicologia Organizacional pela FAE- Business School (2007). Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (2005).
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