Discussão de Práticas de controle nas organizações capitalistas contemporâneas

Conforme solicitação de alunos e colegas, e com o intuito de divulgar e incentivar a discussão de textos sobre a temática “Processo de Trabalho, Gestão, Poder e Subjetividade”, compartilho aqui resenha do texto do Prof. Dr. José Henrique de Faria, intitulado “As práticas do controle nas organizações produtivas capitalistas contemporâneas” de 2008.

Faria (2008) apresenta neste capítulo os fundamentos teóricos para o estudo dos processos objetivos e subjetivos de controle partindo das instâncias de análise propostas por Eugéne Enriquez. O autor afirma que se torna cada vez mais evidente que os mecanismos de controle estão sendo praticados de forma cada vez mais sutil e mais subjetiva e que isto não implica que estejam desaparecendo as formas explicitas e objetivas de controle. Defende ainda que as formas de estratégia gerencial que tem avançado no sentido da participação, do envolvimento, da descentralização, da autonomia, entre outros não apresentam um contraponto à estratégia de gestão de controle direto do tipo taylorista-fordista, sendo, pelo contrário, duas faces de um mesmo sistema estratégico gerencial de controle do processo de trabalho, percebendo-se na primeira forma estratégica apenas uma sofisticação, e não uma oposição, em relação à segunda.

Faria (2008) desdobra a análise do controle entre as diversas instâncias:

  • Instância Mítica:

Procura compreender como controle atua através do mito na organização.

A Função do mito é de criar unidade entre os sujeitos e entre grupos em torno de um projeto social comum, sendo uma base de identificação com a organização. O Mito compreende a coletividade de crenças, sentimentos e imagens atribuídos a um tema central que pode ser o mito do herói fundador, do herói dirigente e da organização portadora de um ideal identificado pelo sujeito como seu, o sujeito se realiza através da realização da organização “tomando a lei do capital como a única lei capaz de conferir satisfação dos desejos e das necessidades indispensáveis à vida” (FARIA, 2008, p. 27).

Como mecanismo de controle o mito é alimentado nas organizações tornando-se a imagem do que a organização deseja ser, identificados com este mito os empregados transformam em seus desejos e sonhos o ideal proposto pelo mito organizacional, conforme Faria (2008) a identidade total leva à perda da identidade individual e coletiva contribuindo para a alienação do sujeito trabalhador ao controle do capital, assim: “o mito assume a função do ideal egóico do grupo, que projeta nele a resolução de todas as suas aspirações” (FARIA, 2008, p. 30).

  • Instância Social-Histórica

Compreende a forma como a organização garante o cumprimento de sua missão, sua trajetória e seu projeto através da afirmação de uma trajetória de sucesso e da afirmação de metas a serem atingidas para manter essa trajetória. É conforme o autor, um “modelo destinado à construção de uma realidade” (FARIA, 2008, p. 36), que servirá de guia para ações futuras. Também no plano sócio-historico pressupõe-se uma identificação com a empresa, que nesta instancia se dá através não do mito, mas de uma construção ideológica, conforme o autor através de “uma concepção de mundo conforme suas aspirações (da empresa) e uma interpretação do real coerente com suas práticas sociais” (FARIA, 2008, p. 38), o autor reforça ainda que, enquanto controle a adesão à ideologia do capital é uma forma de sequestro da subjetividade do trabalhador.

  • Instância Institucional

Refere-se ao conjunto de normas e regras que estabelecem um padrão com a intenção de definir as formas de conduta explícitas e implícitas na relação social de trabalho regulamentando-a.

O controle em nível de análise institucional atua na educação, formação, treinamento e qualificação dos sujeitos para reproduzir um determinado tipo de conduta institucionalizado. Segundo Faria (2008) é um controle que permanece sutil enquanto os sujeitos permanecerem fiéis e submissos a conduta institucionalizada, mas que passa a ser coercitivo e mais explícito ao surgirem questionamentos e enfrentamento, cumprindo de uma forma ou de outra seu papel de reprodução do padrão instituído.

  • Instância Organizacional

A análise do controle na instância organizacional compreende as estruturas, normas, procedimento de autoridade, responsabilidade e hierarquia. O Controle nesta instancia, conforme o autor: “apoia-se nas estruturas e organogramas da organização. O indivíduo é inserido nessas estruturas que tem como finalidade controlar o trabalho realizado, a remuneração, as promoções etc. A estrutura define a função, o cargo, o salário, o tempo de duração do trabalho, as competências, a autoridade e a correspondente responsabilidade, seguindo as normas e as regras da organização e não dos chefes” (FARIA, 2008, p. 43)

O controle nesta instância remete em grande medida à impessoalidade das estruturas, à racionalização do trabalho, ao utilitarismo e à racionalidade instrumental como legitimadora das normas, que visam sempre, em última instância, o aumento da produtividade.

  • Instância Grupal

O controle na instancia grupal pode ser percebido atuando em diversas estratégias de gestão principalmente nos modos de gestão da produção baseados na produção enxuta e no sistema Toyotista. Dentre eles pode-se citar: os grupos de controle de qualidade, o Team work, os grupos semi-autonômos  entre outros, em que, conforme o autor “ os indivíduos se reúnem em grupos para tentar resolver problemas comuns dentro da organização do trabalho, sejam estes de ordem objetiva ou subjetiva, pois é neste nível que os mesmos discutem, divergem e planejam suas ações, tanto para executar o trabalho como para enfrentar as agressões que o mesmo promove” (FARIA, 2008, p. 48). Assim o controle na instância grupal se dá tanto pelo investimento da organização contra a formação de ações de grupo que possam caminhar para o enfrentamento, quanto pela tentativa de controlá-los e retirar contribuições criativas e produtivas, que levem à inovação e resolução de problemas úteis à organização. De forma que toda formação grupal na organização seja em torno do projeto social comum da organização.

  • Instância Individual

A instância individual compreende o sujeito trabalhador e as relações além da econômica que estabelece ao vender sua força de trabalho ao capital, leva em consideração questões referente à alienação não só do trabalho como da subjetividade e da autonomia do indivíduo, além de considerar as contradições entre indivíduo e organização, seu papel no sofrimento e doença que decorrem desta relação, bem como nas possibilidades de ações de enfrentamento que possibilitam.

  • Instância Pulsional

A análise do controle na instância pulsional compreende as pulsões de vida e de morte, Eros e Tanatos agindo tanto nos indivíduos como analogamente nas organizações. Segundo Faria (2008), o que se percebe em relação às práticas contemporâneas de controle nas organizações é um discurso de Eros, de pulsão de vida, que busca a diferenciação, a autonomia, o desenvolvimento, a cooperação, entre outros, mas com uma prática de Tanatos, uma pulsão de morte percebida na compulsão à repetição, na manutenção de procedimentos, e do status quo de maneira geral, levando os indivíduos ao que o autor cita como “homogeneização, à inércia, à paralisia e à acomodação, de forma que os mesmos tornam-se não críticos e submissos a um mito ou a uma ideologia”. (FARIA, 2008, p. 57)

Faria (2008) escreve que a evolução dos modos de gestão sempre se dá quando há uma “crise de acumulação e do desenvolvimento de formas mais eficazes de resistência operária aos mecanismos de controle e de exploração” (FARIA, 2008, p. 64). Conforme o autor as formas contemporâneas de controle aparecem como conseqüência de dois fatores conjugados, o esgotamento dos métodos Taylorista e Fordista em sua forma original enquanto forma de ampliação da acumulação do capital, e da mudança nos padrões de concorrência.

Assim, o controle do processo de trabalho, segundo o autor, evolui no sentido em que, em um primeiro momento era simples, o capitalista comprava diretamente a força de trabalho por um determinado período de tempo, num segundo momento passa a ser expandida, em que ocorre a divisão entre trabalho mental e trabalho manual, representada pela organização científica do trabalho, e passa num terceiro momento, contemporâneo, a ser um controle sofisticado, que amplia o controle já existente avançando sobre o controle da subjetividade do trabalhador.

 

Referencia:

FARIA, JOSE HENRIQUE de; “Economia Política do Poder – Voume 3: As práticas do controle nas organizações”.Edt. Juruá, 5ª. edição, Curitiba, 2008.  Capítulo 15: As práticas do controle nas organizações produtivas capitalistas contemporâneas”. (Págs. 25 a 84).

Camila Bruning

Camila Bruning

professora em nível de graduação no Centro Universitário UNINTER, em Curitiba- PR em Uninter
Doutoranda (previsão de conclusão em março de 2017) e Mestre pelo programa de Administração da Universidade Federal do Paraná na linha de pesquisa "Estratégia e Análise organizacional" (2010). Pós-Graduada em Administração com ênfase em Gestão de Psicologia Organizacional pela FAE- Business School (2007). Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (2005).
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